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Biografia
Da introdução de Kitty Hunter-Blair para Tarkovsky The Diaries 1970-1986

Uma Sumária Biografia 
[N.T.: Esta tradução baseia-se no português do Brasil. Os eventuais erros de regência/concordância do
texto em inglês foram mantidos, com a finalidade de tecer uma versão o mais fidedigna possível.]

tarkovsky picAndrei Tarkovsky nasceu a 4 de abril de 1932 [N.T.: na cidade de Zawrashje, Iwanowo, Rússia]. Sua mãe, Maria Ivanovna, era uma talentosa atriz, e seu pai, Arseniy Tarkovsky, um respeitado poeta e tradutor. Ambos figuraram em sua obra -- sua mãe como atriz e seu pai através dos soturnos poemas que Andrei utilizou em vários de seus filmes.

Quando seus pais separaram-se, Andrei e sua irmã mais nova, Marina, continuaram a viver com sua mãe. Em 1939 sua educação em Moscou foi interrompida, mas ele voltou à cidade em 1943. Além das aulas normais na escola, começou a estudar música e desenho. Em 1951 ingressou no Instituto de Línguas Orientais de Moscou, mas não pôde completar o curso devido a enfermidades. Em 1954, sua solicitação de entrada no prestigiado Instituto de Cinematografia do Estado (VGIK), em Moscou, sucedeu. Lá, Mikhail Ilych Romm tornou-se seu mais influente professor. Sua amizade com Andrei Mikhalkov-Konchalovsky capitaneou-o a uma parceria no roteiro de Katok i Skripka (1960) [N.T.: mencionado pela autora deste texto como The Steamroller and the Violin, título em inglês], a estréia cinematográfica de Tarkovsky, que rendeu-lhe o diploma no VGIK e que já revelava significativos elementos típicos de seu trabalho posterior. 

O primeiro grande filme do diretor foi exibido em Moscou, em abril de 1962. A Infância de Ivan (Ivanovo Detstvo, 1962), baseado em uma história de Vladimir Bogomolov (quem também se envolveu com a filmagem), ganhou o Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza, no mesmo ano. O reconhecimento internacional que seguiu este sucesso desencadeou uma considerável preocupação ideológica em seu país, que ulteriormente -- no final de 1966, após a estréia de Andrei Rublev (Andrei Rublyov, 1966), que foi exibido paralelamente no festival de Cannes de 1969, onde ganhou um prêmio -- o liberaria para exportação através do Departamento de Filmes Soviéticos apenas em 1973. Da mesma maneira, O Espelho (Zerkalo, 1974), um filme autobiográfico que foi finalizado em 1974 sob uma forte resistência burocrática, alcançou as salas de cinema da Europa ocidental somente alguns anos depois. 

Com Solaris (idem, 1971/72), baseado em um romance de ficção científica de Stanislaw Lem, Tarkovsky tocou em um assunto ainda relativamente inócuo na União Soviética na época -- o homem conquistando o espaço --, mas, mesmo assim, sua abordagem gerou uma longa lista de críticas e objeções. Stalker (idem, 1979), o último filme de Tarkovsky na União Soviética, é baseado em Roadside Picnic, uma história dos irmãos Strugatsky, e lida com temas que açulam a visão de mundo do diretor: a oposição entre ciência natural e crença, o futuro da raça humana em vista da ameaça atômica presente e, por fim, a minguante esperança que ainda resta ao homem. 

Após uma produção teatral de Hamlet em Moscou, Tarkovsky viajou à Itália em 1982 para filmar Nostalgia (Nostalghia, 1982). Co-produção ítalo-soviética, baseia-se em um roteiro escrito junto ao poeta Tonino Gurerra. O tema é, entretanto, típico do dilema russo: um artista no estrangeiro, castigado pela saudade de casa, impossibilitado de viver em seu país ou longe dele -- um destino que foi reservado ao próprio Tarkovsky nos últimos anos de sua vida. 

No outono de 1983 encenou Boris Godunov com grande êxito no Covent Garden Opera, em Londres. Um ano e meio depois, em 1986, seu largamente aclamado livro Esculpir o Tempo (Sculpting in Time; Martins Fontes Ed.; 100 páginas) foi publicado. Ao mesmo tempo, conduzia as preparações para seu último filme, em Berlim, onde estava morando em 1985 com uma bolsa de estudo do Serviço de Intercâmbio Acadêmico Alemão: O Sacrifício (Offret/Sacrificatio, 1986), freqüentemente referido como o grande legado de Tarkovsky. 

No final de 1985, após finalizar a filmagem de O Sacrifício na Suécia, Andrei Tarkovsky retornou a Roma, já aflito pela enfermidade a que iria sucumbir um ano depois, em 29 de dezembro de 1986 [N.T.: algumas fontes catalogam sua morte em 28 de dezembro], em uma clínica parisiense de câncer. É enterrado em um cemitério para refugiados russos na cidade de Saint-Genviève-du-Bois, França.    


N.T.: Nota do tradutor

Traduzido por Fábio Prikladnicki (prik@ez-poa.com.br)

Jean Tulard define Tarkovsky
Para complementar as informações do texto acima, reproduzo ao lado a definição do verbete "Tarkovsky, Andrei" da obra Dicionário de Cinema - Os Diretores (tradução de Moacyr Gomes Jr.; L&PM Editores; 696 páginas), do francês Jean Tulard. . Cineasta profissional formado pela Escola do Estado, onde foi aluno de Romm, Tarkovsky assinou, depois de alguns exercícios escolares, seu primeiro longa-metragem em 1962. A Infância de Ivan, que contava as proezas de um jovem órfão que se distingue atrás das tropas das linhas inimigas durante a guerra, adequava-se aos cânones do cinema soviético e ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza. Uma bela carreira anunciava-se para Tarkovsky. Infelizmente, Andrei Rublev, biografia de um monge do século XV, pintor de ícones de renome, e uma visão sem artifícios de uma Rússia medieval dessacralizada, chocou as autoridades russas, insensíveis à perfeição das imagens. O filme foi proibido, mas acabou sendo exibido no ocidente. Depois de uma longa interrupção, Tarkovsky chegou a rodar um bom filme de ficção científica, Solaris, acolhido com reservas na União Soviética. O Espelho provocou um novo escândalo: o filme foi julgado revolucionário demais no plano técnico e em razão da estrutura da narrativa. O cineasta retornou à ficção científica com Stalker, uma obra menos comprometedora mas difícil, espécie de fábula filosófica. Os aborrecimentos incessantes que lhe ocasionaram a burocracia soviética levaram-no, em 1984, a se mudar para a Itália. Apesar das atribulações, Tarkovsky não deixa de ser uma das figuras mais originais e mais interessantes do cinema russo. Colocado sob o signo de Ingmar Bergman e da literatura russa, O Sacrifício é uma obra austera e pessimista.